*.::::Nina Botelho:::.*

27/11/2004 17:01
"O Mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
É uma idéia assustadora : vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo.
E o que configura essa perspectiva nossa ?
Ela inaugura na infância, com suas carências nem sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidade e imprevistos contra os quais nada nos defende.
Temos que criar barreiras e ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos.
Mas não somos levados apenas à revelia numa torrente, somos
participantes.
Nisso reside nossa possível tragédia : o desperdício de uma vida com seus talentos truncados se não conseguimos ver ou não tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, em qualquer idade.
A elaboração de "nós" iniciado na infância ergue as paredes da
maturidade e culmina no telhado da velhice, que é coroamento embora em geral seja visto como deterioração.
Nesse trabalho nossa mão se junta às dos muitos que nos formam.
Libertando-nos deles com o amadurecimento, vamos montando uma figura : quem achamos que merecemos ser.
Nessa casa, a casa da alma e a casa do corpo, não seremos apenas
fantoches que vagam, mas guerreiros que pensam e decidem.
Constituir um ser humano, um nós, é trabalho que não dá férias nem
concede descanso : haverá paredes frágeis, cálculos mal feitos, rachaduras.
Quem sabe o pedaço que vai desabar. Mas se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol.
O que se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que nos fizeram pensar que valemos e dos que fizemos para confirmar ou mudar isso, esse selo, sinete, essa marca.
Porém isso ainda seria simples demais : nessa argamassa misturam-se boa-vontade e equívocos, sedução, celebração, palavras amorosas e convites recusados.
Participamos de uma singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos o objeto da nossa própria inquietação. Nem inteiramente vítima nem totalmente senhores, cada momento de cada dia , um desafio.
Essa ambiguidade nos dilacera e nos alimenta. Nos faz humanos.
No prazo da minha existência completarei o projeto que me foi proposto, aos poucos tomando conta dessa tela e do pincel.
Nos primeiros anos quase tudo foi obra do ambiente em que nasci :
família, escola, janelas pelas quais me ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação.
Logo não terei mais a desculpa dos outros: pai e mãe amorosos ou
hostis, bondosos ou indiferentes, sofrendo de todas as naturais fraquezas da condição humana que só quando adulto reconhecemos. Por fim havemos de constatar: meu pai, minha mãe, eram apenas gente como eu. Fizeram o que sabiam, o que podiam fazer.
E eu...e eu ?
Marcados pelo que nos transmitem os outros, seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro...

Rui eu te amo!!!
enviada por Nina Botelho






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